Relato do evento “Como lidar com os conflitos entre as crianças?”

31/10/2012 § 1 comentário

Em 18/10/2012, recebemos a psicanalista Lidia Aratangy para uma palestra sobre os conflitos entre as crianças, em casa e na escola. Aqui estão os principais tópicos levantados pela palestrante:

CONFLITOS

•             Os conflitos estão em toda parte e sempre existirão. Eles fazem crescer, são constituintes do ser humano e não necessariamente algo negativo. Por isso, ao invés de temê-los, devemos encará-los de frente.

•             Conflito e divergência são saudáveis e diferentes de violência e agressão – estes últimos não devem ser admitidos no âmbito da educação. Devemos aprender a divergir, discutir, sem ruptura.

•             “Educar para a paz” é um conceito que não faz muito sentido: temos que educar para saber lidar com as diferenças e resolver os conflitos, começando por aceitar que estes existem.

Conflitos em casa

•             Pode acontecer de um irmão bater no outro – isso não é o fim do mundo.

•             Os pais precisam procurar estar mais presentes e ouvir mais os filhos, dar mais atenção de fato.

•             É importante também ser explícito e coerente. Um “não” basta. E não adianta dizer para não fazer algo, se o próprios pais fazem.
•             Em nosso processo evolutivo, reunimo-nos em grupo porque assim ficava mais fácil se defender. A solidariedade foi maior que a violência, por isso chegamos aqui. O homem é fraterno, é solidário, não é o lobo do homem.

Conflitos nas escolas

•             A escola é um espaço privilegiado da diversidade, de formação de lideranças. Deve-se reconhecer as diferenças e não ter medo delas. É a partir da celebração das diferenças que se cresce e se evolui.

•             As escolas tendem a apenas reconhecer os conflitos quando estes passam a afetar a disciplina dentro da sala de aula.

•             Assim, os conflitos entre alunos são ignorados pela escola, quando poderiam ser explorados como instrumento educativo e de formação do indivíduo.

•             Em toda escola deveria haver uma “estátua para a diferença”, para valorizar a diversidade.

O conflito na mídia

•             Na era da informação, devemos educar as crianças com vistas a que deixem de ser “esponjas” e se transformem em “filtros”.

•             A mídia em geral destaca apenas o lado “negro” dos eventos e ocorrências que veicula. Esse é um reflexo de uma sociedade que tende a idolatrar a violência. No entanto, é possível olhar os fatos a partir de outra perspectiva.  A escola pode utilizar os fatos veiculados pela imprensa para questionar junto aos alunos o fato de o comportamento criminoso ganhar tanto destaque enquanto existem “N” ocorrências positivas que não ganham tanta visibilidade (em sua apresentação, Lídia baseou sua tese em recortes de jornais).

ADOLESCÊNCIA

•             Deixou de ser uma etapa do desenvolvimento humano – agora é uma ideologia, que prega a juventude como valor máximo.

•             Portanto, a adolescência se alongou. Se antes ia dos 13 aos 18, hoje começa lá pelos 9 e vai aos 40, 50…

•             Sumiram os rituais, os marcos da passagem de uma fase da vida para a outra. No entanto, cognitivamente, as etapas da formação continuam a existir.

•             Por exemplo, quando passa do pensamento concreto ao abstrato é que o adolescente estará pronto para entender o significado de questões morais.

•             Só com o pensamento abstrato desenvolvido é possível ter efetivamente um código de ética introjetado.

•             A expectativa em relação ao sexo, principalmente por parte dos meninos, é a de uma performance que corresponde ao que se vê/aprende na TV ou Internet. Assim, os adolescentes se frustram e desperdiçam oportunidades de viver uma experiência verdadeira.

•             A vida sexual tem se iniciado cada vez mais precocemente, com o consentimento dos pais. No entanto, o jovem apenas está apto para a experiência sexual quando compreende as consequências de seus atos, para si mesmo e seu parceiro. Os pais não precisam “facilitar” o início da vida sexual de seus filhos tão cedo, como se essa fosse a coisa mais normal.

MATERNAGEM

•             É um conceito psicanalítico, um processo pelo qual um adulto que cuida da criança (em geral a mãe, mas pode ser outro com vínculo forte) dá significado às experiências emocionais da criança, quando ela não sabe o que fazer, como reagir.

•             Um  exemplo é quando a criança cai e não sabe se chora ou se levanta tranquilamente – é a reação desse adulto que vai lhe dizer como ele irá se relacionar com o ocorrido –  fica desesperado,  não dá importância, etc.

•             Isso ajuda no crescimento e na formação da criança, que precisa de referências no mundo adulto para criar suas próprias referências e valores.

EDUCAR

•             Educar é uma atividade subversiva; é nadar contra a maré – não é para preguiçosos nem para covardes.

•             Crianças obedientes não são necessariamente seres éticos.  A ética faz parte do desenvolvimento do ser humano, do respeito pelo outro. Ética faz parte do amor próprio.

O respeito ao outro se dá quando se tem isso como valor ético, não por temer a autoridade. É como parar antes da faixa de pedestres para que eles atravessem a rua, por valor ético e não porque vai ser multado.

•             A dificuldade é introjetar o sentimento ético; o medo da autoridade não serve para isso

•             Identificar-se mais com a solidariedade do que com as tragédias

•             Ética como parte do amor próprio

•             Liberdade é uma questão de competência: é preciso ser capaz de lidas com as consequências de suas escolhas

•             Focar no reforço positivo (atitudes éticas, valorizar e dar visibilidade a quem está fazendo certo).

Aliança entre as famílias e a escola

•            Aos pais cabe conhecer seus filhos e serem coerentes entre o que dizem e o que fazem.

•            À escola cabe coerência em seu projeto pedagógico, cuidar da própria violência –  existente entre suas paredes – e equilibrar mídias (internet, videogame) e leitura em seu processo de construção de aprendizagem.

•             As escolas devem estar preparadas para serem parceiras das famílias na tarefa de educar, de forma que as situações problemáticas que as crianças passam dentro da escola possam ser vividas como experiências enriquecedoras.

Complementando o relato

Modelos masculinos e femininos

Os meninos têm uma dificuldade maior de criar os seus modelos pois vivem em um mundo mais feminino (mãe, avó, tia, professoras, moças da cantina, babás) e acabam criando seus modelos pela negação – o que não é o feminino, o que acaba gerando ideias de que homens não podem chorar, homens não são gentis, homens não são falantes… Que a maior parte dos pais não está tão presente e que, mesmo que esteja, é um dos modelos. No feminino há mais possibilidades de experimentação: o modelo das meninas é construído com um pedacinho da mãe, da professora, da manicure, da amiga da mãe, da tia, da mãe do coleguinha… são muitos os modelos à disposição para experimentar na construção de um modelo próprio.

Maternagem (um pouco mais)

Nossas reações ajudam a significar os fatos que acontecem na vida das crianças e que elas não são capazes de entender. Que elas leem o mundo através das nossas lentes quando estão descobrindo/ se descobrindo. O exemplo dado do bebê que está começando a andar e cai é ótimo. Ele olha para os pais, buscando nas reações faciais deles a explicação e um entendimento dessa experiência emocional e pistas de como ele deve agir (se deve ter medo, se deve achar engraçado). E, dependendo da reação dos pais – que não necessariamente tem a ver com o que eles dizem mas sim com o como reagem (linguagem corporal, tensão da voz, olhar) – é que a criança vai construir um significado e uma relação com o fato.

Não é apenas o que a gente fala. É como falamos. Achei uma boa sacada a de que a repetição esvazia a fala e tira a autoridade. Se você diz “Estou indo já” a pessoa é capaz de te esperar, mas se diz “estou indo já já” ninguém espera. Um “não” tem mais força do que um “não, não, não, não”. Se você quer ser ouvido, diga apenas um “não”.

Mídia e violência

A mídia colabora para criar e alimentar um imaginário de violência. É realmente verdade que todos sabem o nome de quem matou as pessoas no cinema (em 1999, na sessão do filem “Clube da Luta”) mas poucos sabem o nome de quem segurou o matador (Renato Lucena Fernandes de Mello, de 24 anos). A mídia não divulga. O bom mocismo não tem vez. Não vende jornal, não amplia a audiência.

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